Avanço da direita bolsonarista deixa PSDB sem espaço no antipetismo

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A nova locomotiva que puxará as forças conservadoras é o PL, partido que elegeu 99 deputados federais e deve ocupar o lugar do PSDB

O crescimento do bolsonarismo e as dúvidas sobre o destino dos tucanos deixaram o PSDB quase sem espaço para liderar o antipetismo no Brasil a partir de 2023. Essa é uma das principais marcas do período eleitoral aberto em 2018 e concluído em 2022.

Para analistas, consolidou-se um novo ciclo político no Brasil, com a substituição de uma centro-direita social liberal por uma direta bolsonarista na liderança de uma das duas grandes coalizões que disputam o poder no Brasil. A nova locomotiva que puxará as forças conservadoras é o PL, partido que elegeu 99 deputados federais. Ele deve ocupar na próxima legislatura o papel que foi uma vez do PSDB. Ou como legenda do presidente reeleito Jair Bolsonaro ou como principal força política que agregará a oposição a Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

No PSDB, o sentimento de parte do partido é de que a legenda “acabou” como força política nacional, sendo expressiva ainda em poucas unidades da federação. A avaliação é resultado da perda de sua maior fortaleza, o Estado de São Paulo, após 28 anos.

O peso do partido depende ainda das eleições do Rio Grande do Sul e de Pernambuco para que a legenda não seja cooptada completamente pelo bolsonarismo – a maioria da bancada eleita de 13 deputados federais apoia a reeleição de Jair Bolsonaro, enquanto lideranças antigas da legenda se manifestaram a favor de Luiz Inácio Lula da Silva.

“Houve uma mudança substancial em relação à direita, com o surgimento da extrema-direita”, afirmou a cientista política Vera Chaia. Para ela, a partir de 2013, com as manifestações de rua, surge um grupo político não propriamente de seguidores de Bolsonaro que se fortificou no Congresso. “Esse grupo é muito centrado nele mesmo e nos seus seguidores e não em políticas públicas. É diferente do que tínhamos no passado, entre 1994 e 2018. É uma direita iliberal”, afirmou.

Para o também cientista político José Álvaro Moisés “entre 1994 e 2018, o País teve uma disputa polarizada entre dois braços da social-democracia, um mais à direita, liderado pelo PSDB, e outro mais à esquerda, liderado pelo PT”. Segundo ele, isso acabou. “Entramos agora em um novo ciclo político”.

O quadro que surge da eleição é semelhante ao que existiu no segundo turno do pleito presidencial de 1989, o último antes do início do ciclo de disputas entre PT e PSDB. Na época, Lula recebeu o apoio das antigas lideranças do PSDB, MDB, PDT, PSB, PCdoB e PCB (hoje Cidadania).


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Do outro lado estava Fernando Collor de Mello, que agora está com Bolsonaro. Assim como Ronaldo Caiado (União Brasil) e Guilherme Afif Domingos, ambos candidatos derrotados à Presidência, e boa parte do PFL (hoje parte do União Brasil) e PDS (atual Progressistas). Todos eles estão hoje com Bolsonaro.

Tesouras

A deputada mais votada do PL de São Paulo, Carla Zambelli, afirmou que nunca acreditou que o PSDB fosse oposição ao PT. “Era um teatro das tesouras. Eles ficavam se alterando no poder e fingiam ser oposição um do outro para poder se perpetuar no poder.”

Segundo ela, com o apoio do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso a Lula e com Geraldo Alckmin vice do petista é que é possível perceber “que o PSDB nunca foi de direita, sempre foi de esquerda e só fazia esse teatro das tesouras”.

Ex-ministro da Justiça de Fernando Henrique Cardoso, José Gregori explicou o que parecia ser uma dualidade. Ele disse que o PSDB unia a visão social em sua agenda com o que havia de melhor no pensamento sobre a vida econômica no País. “O sujeito que me pôs na esquerda pode ter suas razões para isso. Mas, realisticamente, eu tomava decisões que me faziam ser considerado de direita. FHC dizia que a ideologia no País às vezes se diferencia por milímetros que dificilmente acham resposta na maioria ou na minoria do Congresso.”


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Com a “invasão” do bolsonarismo, essa dualidade se modificou. Zambelli aponta para o surgimento de novas lideranças, como a deputada federal Bia Kicis (PL-DF), que foi reeleita, assim como a ida ao Congresso de novos deputados, como Gustavo Gayer (PL-GO) e Zé Trovão (PL-SC).

Entre as jovens estrelas dessa direita há influencers. Esse é o caso do depurado federal mais bem votado do Brasil, com 1,4 milhão de votos, Nikolas Ferreira (PL-MG). “O Nikolas Ferreira que tem uma grande influência com jovens e cristãos”, disse Zambelli, ela mesma eleita com mais de 900 mil votos em São Paulo.

Ferreira, que era vereador em Belo Horizonte, disse ao Estadão acreditar que o Congresso eleito vai entregar mais resultados. “Obviamente, eu sou uma pessoa assim que tem embates fortes, que não deixa de lado o Parlamento.”

O PL espera capturar no novo Congresso algumas das principais comissões da Casa, como a de Constituição e Justiça. Trata-se de uma direita pouco ligada à universidade e à produção de políticas públicas, como o antigo PSDB e seu programa de responsabilidade fiscal. Os deputados contam com as redes sociais para o contato direto com o eleitor e têm uma pauta populista vinculada a temas dos costumes, da segurança e da oposição à esquerda.


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“Aqui a gente vai ter PT e PL. E a gente tem ali um centro, que é centro-direita, é um centro que é reformista, que é conservador, que é a favor da liberação das armas, contra as drogas, contra o aborto. Então é um centro de direita”, afirmou Zambelli. Para ela, o declínio final do PSDB é representado pela adesão do ex-governador Geraldo Alckmin a Lula, tornando-se seu vice. “Foi a gota d’água final, derradeira.”

Bancada

Enquanto o PL procura garantir o protagonismo como força antipetista, as disputas internas no PSDB prosseguem e terão um papel decisivo na reorganização do partido. A bancada eleita do PSDB, por exemplo, tem, segundo cálculos de dirigentes, a maioria de bolsonaristas, sendo alguns declarados, como Carlos Sampaio (SP), Lucas Redecker (RS) e Adolfo Viana (BA). Com essa configuração, o PSDB tende a ir ainda mais para a direita e eleger uma executiva radicalmente antipetista em junho.

O apoio institucional a um eventual governo Lula é visto como uma possibilidade remota, mesmo que tucanos entrem na administração. Eventuais convites serão considerados cota pessoal, e vai haver pressão pela desfiliação, preveem os tucanos.


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As conversas para fundir o PSDB e o Cidadania estão avançadas, e o Podemos está no radar. Os peessedebistas admitem, portanto, que o símbolo tucano está com os dias contados, bem como a sigla e todo o resto. “Sou entusiasta da fusão do PSDB com o Cidadania, que já está conosco e tem um alinhamento. Manter ou mudar o símbolo do partido é uma discussão que precisamos aprofundar”, disse Marco Vinholi, presidente do PSDB-SP.


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Para o ex-senador José Aníbal, que integra a executiva nacional, o futuro da sigla passa por Pernambuco e Rio Grande do Sul. “Se vencer nesses Estados, o partido sai revitalizado. Leite e Raquel não são bolsonaristas e são republicanos. A vitória deles ajudaria a melhorar a composição partidária”, disse o tucano, que apoia Lula no segundo turno. Depois de governar São Paulo por 28 anos, o PSDB já se posicionou como satélite de uma eventual gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos), com quem está negociando cargos na administração. Os tucanos, que elegeram 9 deputados estaduais, pediram a secretaria de Habitação e outras pastas.

Enquanto isso, o PL elegeu 19 deputados estaduais, e o PT, 18. São as duas maiores bancadas da Assembleia. Já o Republicanos, de Tarcísio, emplacou oito deputados estaduais em São Paulo e 41 deputados federais. Assim, tanto no País quanto no Estado, aumenta a necessidade de os tucanos buscarem uma fusão.

“Quando nasceu, o PSDB juntou Franco Montoro a Fernando Henrique e Afonso Arinos a José Serra. Tínhamos Mario Covas e José Richa. Em nome disso, dessa vida, dessa história, o partido não devia terminar melancolicamente”, afirmou José Gregori.

Estadão Conteúdo



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