uma brasiliense na história do tênis mundial

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Promessa do tênis em cadeira de rodas, paratleta brasiliense está entre as melhores do mundo. Atleta trouxe dois títulos do US Open para o DF

“Sonhar nunca é demais”, declarou a tenista em cadeira de rodas Jade Lanai, que trouxe para o Brasil dois dos mais importantes prêmios do tênis no mundo. No último domingo (18), a paratleta moradora do Sol Nascente chegou de volta ao Distrito Federal com os títulos das competições simples e de duplas do US Open, realizado em Nova Iorque, nos Estados Unidos, na categoria júnior de cadeira de rodas.

“Fui para lá com muitos sonhos, objetivos e metas – e com certeza uma delas period ir para a closing. Poder trazer tanto o título de simples quanto o título de duplas foi algo mais do que eu sonhei e imaginei. Fiquei muito feliz de ter sido a primeira brasileira a trazer um título de Grand Slam para o tênis de cadeira de rodas. […] Foi algo histórico e muito marcante”, destacou a tenista.

Esta foi a primeira vez que a categoria júnior teve espaço dentro de um Grand Slam – título dado aos quatro torneios mais prestigiados e importantes do tênis mundial, sendo eles o US Open (EUA), o Roland Garros (França), o de Wimbledon (Inglaterra) e o Australian Open (Austrália). Assim, com apenas 17 anos, Jade fez história não apenas no campeonato, mas na história do esporte. “Foi um sonho que se tornou realidade. Poder fazer parte disso é incrível”, comentou.

Para a competição, só entravam nas chaves os oito primeiros atletas do rating mundial do tênis de cadeira de rodas. Na 4ª posição antes do torneio, Jade garantiu a vaga. “Desde que soube que poderia estar na chave do US Open, um Grand Slam, já period um sonho e uma conquista muito grande”, afirmou a atleta. “Só de compor as oito primeiras e ser a única brasileira que estaria lá já period algo muito grande para mim.”

Ela cresceu na competição até a closing, realizada em 10 de setembro contra a japonesa Yuma Takamuro. Na partida, Jade salvou dois match factors no penúltimo recreation do último set e conseguiu virar o jogo. No tie-break (desempate), após duas horas e dois minutos de partida, Jade fez história e se tornou a primeira paratleta a conquistar um título júnior de US Open simples. No mesmo dia, Jade também ganhou o título de duplas junto com a estadunidense Maylee Phelps.

“Se não for com emoção, não sou eu jogando”, assim descreve a tenista quanto aos jogos que participa. “A maior competição ali period eu contra eu mesma. Ter conseguido vencer essa batalha também foi muito importante pra mim”, complementou.

Após as vitórias, juntamente com outros quatro atletas juvenis, Jade também recebeu outro prêmio da organização da competição. Ela foi homenageada com o troféu US Open Junior Sportsmanship 2022, por bom espírito esportivo dentro e fora das quadras.


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Apoio

De volta a Brasília, o retorno à sala na última segunda-feira (19) aconteceu com muita animação. A recepção foi surpresa, com faixas, com homenagens, com vários amigos, professores e a direção da escola no Setor Leste, onde estuda. “Foi muito especial. Foi quando caiu a ficha da conquista que eu tive e da importância e o valor que isso tem não só para mim. É algo muito maior que eu, que representa uma conquista para todos eles que me acompanham.”

“São pessoas que sempre me acompanharam e estão comigo desde quando comecei a jogar tênis. Outros chegaram agora, mas sempre vibraram com cada conquista minha, sempre me apoiaram muito. Todas as escolas em que passei foram grandes incentivadoras”, disse a atleta.

Quando recebeu o convite para participar do US Open, Jade chamou o treinador Júlio César, que a treina no Clube das Nações, para acompanhá-la na competição. “Eu fiquei nervoso porque period um sonho meu acompanhar um atleta no US Open, e sendo emblem a Jade então, topei na hora”, disse o treinador e amigo.


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Júlio César, então, passou a prepará-la não apenas fisicamente, mas também mentalmente, incentivando que as premiações chegariam às mãos da paratleta. “E falei para ela: ‘nós iremos para lá e traremos esse título para cá para o Brasil sem sombra de dúvidas. Da mesma forma que elas têm condições, você também tem’. Eu sempre lembrava disso para ela. Eu tinha certeza de que ela iria ser campeã de simples e de duplas”, contou.

Há quatro anos treinando e vendo a evolução de Jade, para ele a conquista é “muito gratificante”, uma vez que o trabalho realizado com ela sempre gerou bons resultados. “Desde que comecei a trabalhar com ela, falei que ela seria a número um do mundo juvenil”, relatou. E lá ela chegou, tendo a primeira posição do rating mundial particular person júnior por dois anos consecutivos, em 2019 e em 2020.

“Foi uma alegria tão grande que começamos a chorar juntos [após a vitória individual], porque a gente sabia pelo que ela passou e o que eu passei também. Foi algo extraordinário. Ela entrou para a história. Pode ser que outros brasileiros ganhem depois, mas o nome Jade Lanai sempre estará lá como a primeira campeã júnior de cadeira de rodas no US Open. Ela está no topo”, afirmou.

Após 20 anos de trabalho com paratletas de tênis, para Júlio César, os dois trabalham com muita cumplicidade e amizade. Ambos trocam ideias, opiniões, dificuldades e alegrias dentro e fora de quadra. Jade conquistou a admiração e apreço do treinador nesse tempo. “Ela pode estar passando pelo que for, mas em momento algum esmorece e está disposta sempre para treinar. Ela é constante”, finalizou.


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História de vida

Para os pais, Edson Moreira, de 45 anos, e Zaira de Oliveira, de 52, Jade também é uma inspiração. Com uma rotina apertada e de muito esforço acordando muitos dias às 5h30 e treinando exaustivamente de segunda a sexta-feira, além dos estudos no colégio, os dois veem em Jade muita força de vontade e determinação desde pequena quando teve contato com outros esportes, como natação, basquete, vôlei, tênis de mesa e badminton.

O esporte, em geral, sempre fez parte da vida de Jade. Começou como uma forma de tratamento por uma má-formação congênita no tubo neural, a mielomeningocele, que gerou a paraplegia. Ela se mudou de Palmas, no Tocantins, para Brasília com poucos meses de vida para fazer o acompanhamento no hospital Sarah Kubitschek. Segundo a atleta, a rede foi um dos maiores incentivadores para que estivesse dentro do esporte, aconselhando a família de que essa seria a melhor forma da filha ter uma qualidade de vida.

Ao longo dos anos, praticando alguns esportes, chegou até o badminton na Associação de Centro de Treinamento de Educação Física Especial (Cetefe). Aos oito, conheceu Anderson Cavalcante, que period professor de tênis no native. Ele a through jogando e dizia que tinha muito potencial para jogar tênis, e a convidou para fazer uma aula experimental.


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“Resolvi experimentar e foi paixão à primeira vista. O que period para ser uma aula experimental, eu quis fazer de novo e de novo, e quando vi eu já estava inserida nele – e isso já tem nove anos”, contou Jade. Os pais, vendo o interesse e desenvoltura da filha, começaram a incentivá-la para seguir jogando.


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“O sonho da Jade sempre foi o nosso sonho. Ela começou a fazer esporte para ter qualidade de vida, para poder lidar com a questão da própria deficiência e aí a gente foi experimentando [as modalidades e atividades]. […] Quando ela foi para os primeiros jogos escolares daqui do DF [no tênis] e já ganhou, ela chegou em casa e disse: ‘eu vou ser atleta’. Isso com 12 anos”, contou a mãe, Zaira.

Assim, Zaira e Edson começaram a trabalhar ainda mais para apoiar o sonho da filha de seguir carreira no esporte. “A gente sabe que não é fácil ser atleta no Brasil. É um conjunto de muita dedicação, esforço, não tem nada a ver com sorte, e que nem sempre toda dedicação leva aos resultados e objetivos que estabelece, porque existem complicadores”, explicou.

Segundo Zaira, havia dois complicadores para Jade: ser paratleta, historicamente com menor apoio e visibilidade, e ser filha de uma família sem as condições necessárias de bancar muitos dos gastos que estariam por vir. Assim, receberam apoio do Cetefe, native em que Jade treina até hoje, às terças e quintas-feiras com o treinador Vinícius Cirilo.

“Nós tivemos que fazer uma rifa para comprar a primeira cadeira de rodas de jogo para ela. Então sempre foi com muita luta e sacrifício. Quando ela foi classificada para o US Open, ela ficou feliz e preocupada ao mesmo tempo, porque ninguém tem R$ 20 mil da noite para o dia, que period o mínimo que ela precisava para embarcar na viagem”, contou a mãe.

Para conseguirem o dinheiro, começaram a se mobilizar para uma arrecadação e também a vender camisetas com o nome da atleta. A CBT ajudou com a passagem de Jade, mas não havia passagem para o técnico nem outro apoio para a estadia. Segundo Zaira, se a filha não tivesse chegado às semifinais, teriam de arcar com as despesas das diárias no native.

“Mas o sonho dela é o nosso, então nos mobilizamos com os colegas das escolas, nas escolas em que ela estudou [Escola Classe, CEF 05 e Setor Leste], a família. Sabemos que por trás de uma atleta como ela para chegar no native onde chegou, com a cabeça que chegou, existem três coisas importantes: pessoas que sonham junto com ela; a crença em si mesma; e muito trabalho e empenho”, disse. “É mérito dela. Ela sempre mostrou que podia fazer sempre mais.”

Foco no futuro

Com os títulos do US Open, Jade conquistou a primeira colocação no rating mundial de duplas e a terceira posição no rating particular person internacional, ambos na classificação juvenil. “Voltei para a briga [do top três] com esse resultado. Espero até o fim do ano, quem sabe, ser a número um novamente, mas estou muito feliz de encerrar esse ciclo [do juvenil] tão bem”, comentou. Ao completar 18 anos, a atleta passará a competir na categoria profissional.

Atualmente ela participa de um projeto feito e apoiado pela Confederação Brasileira de Tênis (CBT), juntamente com o Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) e o Branco de Brasília (BRB), fazendo um giro pela América do Sul. Nos países latinos, ela jogará alguns torneios com a intenção de participar de conseguir bons resultados internacionalmente, melhorando a posição do rating na carreira.

“Esse convite veio para que eu fizesse parte desse time de atletas em que eles [organizações] veem muito potencial de estarem representando bem o Brasil e colocando o país em evidência. Fico muito lisonjeada de estar fazendo parte disso. Acredito que é um projeto que vai me ajudar muito tanto nesse ciclo da transição do juvenil para o profissional quanto também nas próximas metas, que são o Parapan e a Paralimpíada”, destacou Jade.

Ela continuará treinando para manter o tênis em primeiro lugar. Apesar de cursar o 3º ano do Ensino Médio e ver a Psicologia como possibilidade de curso de graduação – para seguir carreira também como psicóloga do esporte –, Jade está se dedicando e recebe incentivos para continuar como jogadora de tênis, sendo esta a primeira escolha em todas as decisões que faz na vida.

Jade entende que a atuação não apenas dentro das quadras, mas também no cotidiano, tem o potencial de incentivar e motivar outras pessoas. “Espero que as pessoas possam se espelhar em mim, não só nesse sentido [do esporte], mas também ao criar oportunidades tanto para si mesmas quanto para aqueles em que podem ajudar a realizar os sonhos também, sempre que possível fazer isso.”



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